Minha jornada pela vida se iniciou no interior do RJ, em uma pequena cidade montanhosa de 13 mil habitantes, muita mata atlântica e um bocado de chuva. Engenheiro Paulo de Frontin, era 1984. Uma infância simples brincando com amigos na rua, indo a escola, assistindo desenhos da TV e já cheio de perguntas sobre o sentido e o significado da vida.
Na adolescência as perguntas se intensificaram e me sentia a maior parte do tempo inútil, deslocado, sem propósito e cheio de melancolia. A vida não parecia valer a pena àquela altura. As leituras e os games ajudaram-me a agarrar na vida naquele período. Gibis (De turma da Mônica na infância à Espada Selvagem de Conan na adolescência), livros, revistas, jogos de RPG e tudo que tivesse letras aglomeradas e contasse histórias me teletransportavam a universos maiores onde eu me deliciava. Ah, e a poesia da Legião Urbana eram o pano de fundo das intensas emoções juvenis.
Eu sempre amei histórias.
Em especial aquelas que proporcionavam diferentes finais de acordo com as escolhas que fazíamos – por isso Chrono Trigger no meu Super Nintendo gerou tanto magnetismo em mim com seus treze finais diferentes. Nessa época adolescente, ainda não era claro que viveria para ouvir histórias “em tempo real” e inspirar novas travessias (e finais!) em outras pessoas…
Uma das minhas histórias mais marcantes aconteceu no acampamento de carnaval de uma igreja cristã Congregacional em 1999. Encontrei ali o amor de Deus e me senti parte de uma comunidade de fé. Isso mudou completamente minha vida e nos dois anos seguintes fiz grandes amigos, aprendi a tocar violão, comecei a falar em público e aos 15 anos já me percebi inspirando pessoas em suas jornadas. A experiência da fé encheu minha vida de significado e a comunidade de fé se tornou parte importante do meu suporte na vida. Eu me sentia parte de algo maior pela primeira vez na vida e isso era incrível!
Aos 17 me mudo para MG e carregava o sonho de ir para a Índia fazer missões e ajudar pessoas. Minha fé em Deus e a crença que todos temos uma grande missão de vida despontava como a grande mola da minha existência, mas ao invés de atravessar o atlântico, me era necessária outra travessia, então…
A descoberta da Psicologia
Aos 18 anos ingressei na universidade de psicologia e passei os 5 anos seguintes acompanhado de Freud, Skinner, Jung, Rogers e outros. Como você pode imaginar foram enormes conflitos entre fé e ciência dentro do meu coração que demorariam anos até serem apaziguados. Foi um belo período de amadurecimento que me orgulho profundamente de ter vivido!
Quando enfim chegou o verão de 2005 começaram os atendimentos clínicos – parecia um sonho! Viver para ouvir histórias e ajudar pessoas a se reconectarem à grande história da vida delas. Na clínica tive a experiencia do assombro diante do outro. O outro me parecia cada vez mais sagrado e a cada escuta eu mergulhava em um mundo diferente, um universo novo. Meu mundo se ampliou! Eu havia encontrado minha Índia, havia feito o que se mostra até hoje a maior travessia da minha vida. Minha missão não estava do outro lado do Atlântico, estava no acolhimento, na escuta presente, no olhar humano cheio de afeto. Não há história de vida que não mereça ser contada, ouvida e ampliada.
Considerando a profunda falta de sentido e melancolia que permeou toda minha adolescência, me sinto profundamente grato e privilegiado em ter como trabalho ajudar adolescentes e adultos a encontrarem sentido na vida. É como dar a volta por cima e vencer na vida. Nenhum de nós está livre de lutar com a vida para dela extrair maior significado e com a psicologia eu me encontrei e tenho conseguido ajudar outros (a) a encontrarem a exuberância de uma vida plena. Honra, gratidão, privilégio.
Chega então o primeiro ano de recém-formado. Ele foi cheio de crises, inseguranças e ansiedade. Qual o próximo passo após um ciclo de 5 anos na universidade? Só o diploma, não me posicionava nesse mundo novo, eu precisava remar um pouco mais, mas para onde?
Me mudei para a cidade de São Paulo e fui fazer o que achava que sabia fazer – mesmo inseguro, com medos, continuei remando na direção da clínica. Aos 23 anos subloquei um consultório na Vila Mariana, fiz alguns cartões de visita e resolvi viver de ouvir histórias e ajudar pessoas a ressignificarem suas vidas e emoções. Aquele foi um ano de clínica inesquecível! Foi uma grande aventura e sou grato ao Ricardo de 23 anos por não ter parado de andar só porque as pernas tremiam!
Paralelamente me foquei em estudar para concurso e passei em um deles, mas decidi não assumir. Eu estava noivo e me casaria com a Fernanda naquele ano (2009) e embora a estabilidade do concurso parecesse um ótimo negócio naquele momento, os ventos apontavam para outra direção. Demos as mãos, nos lançamos ao mar e içamos as velas em direção a Campinas-SP. Nova travessia no horizonte…
A descoberta da Teologia
Em Campinas estudei no Seminário Presbiteriano do Sul, o mais antigo seminário protestante do país, fundado em 1888, lugar onde estudaram expoentes como Rubem Alves (Escritor, educador, teólogo, filósofo, psicanalista, cronista e professor emérito da Unicamp) e Richard Shall (Precursor da Teologia da libertação no Brasil). Após 4 anos me graduei em teologia (2012). A próxima década inteira eu dividi minha vida entre cuidar de uma comunidade de fé como pastor presbiteriano e atender clinicamente como psicólogo. Eu tinha 27 anos e continuava a contar e me encantar com histórias enquanto aprendia na prática a administrar, planejar e liderar uma comunidade de fé. Foram casamentos e divórcios, aniversários e velórios, festas e choros intensos enquanto escutava milhares de histórias e conhecia pessoas incríveis, que assim como eu, ainda estavam aprendendo a viver e a conjugar fé com o absurdo da vida.
Em 2015 ingressei no Mestrado em Ciências da religião no Mackenzie-SP onde tive a formação mais significativa da minha vida acadêmica. O mestrado me ajudou a conciliar finalmente psicologia e fé em minha jornada, quebrar tabus e ampliar meus horizontes. Estudar Psicologia da religião se tornou parte da minha travessia, o que contrasta com uma psicologia brasileira que pretende cuidar do ser humano ignorando os efeitos de sua fé, espiritualidade e religião em sua subjetividade e resposta aos desafios da vida. A vida contudo, é mais do que psicologia, teologia e ciência…
A descoberta de uma vida cheia de valor
Casado com a linda Fernanda desde 2009 em agosto de 2015 Deus nos presenteou com a linda Nanda! Com a chegada dela eu me despedi do silêncio e como é bom ouvir a voz dela! (E como fala!)
Quando me tornei pai a tarefa de conciliar mestrado, pastorado, clínica psicológica e família se tornou impossível. A conclusão do mestrado foi uma tarefa heróica, mas concluída com sucesso! Recolhi as velas, guardei os remos, era tempo de ficar mais pertinho da minha Nandinha! Mais do que tudo, ela tinha o meu coração, com é bom ser pai!
Dizem que sou carioca, do sul de MG com sotaque paulista. Acho que misturou as coisas aqui dentro de mim e isso aumentou ainda mais minhas inquietações. Quando surgiu a pandemia mundial afetando todos nós, eu sabia que minha jornada não havia acabado e eu precisaria buscar novos horizontes.
Nesse momento da vida eu já havia morado no RJ, MG e SP. Tinha duas graduações e um mestrado. Era um pastor e psicólogo de prestígio. Uma posição que jamais imaginei que viveria em minha vida. Havia alcançado relativo sucesso, uma barba mais ou menos e profundas olheiras. Ah não posso esquecer do Capitão Toad, nosso Yorkshire! Tudo certo? Nem tanto!
Eu lidava com 40 pacientes por semana na clínica, cuidava de uma comunidade de fé e… Deus nos presenteou com o lindo Rodrigo (Você achou que eu colocaria o nome de Cardo, não é mesmo?). Agora pai de um pet, e com dois filhos crescendo, meu ritmo de vida denunciava minhas ausências. Os últimos 15 anos, desde o ingresso no seminário, foram sem finais de semana para descanso e desfrutar da família. No último ano eu conversava com um Burnout todas as manhãs negociando o “quando”…
Embora não fosse difícil perceber a urgência em reorganizar minha vida, penso que neguei essa realidade por um bom tempo. A pandemia e a chegada do Cardo, digo Rodrigo, deixaram isso claro pra mim. Ser pai foi e ainda é a maior travessia da minha vida e nenhuma outra me traz mais orgulho, significado e sentido. Perder isso seria perder a mim mesmo. Uma decisão precisava ser tomada. E ela não seria fácil…
O custo de uma vida presente
Decidi pausar o pastorado formal e me dedicar a novos projetos que me permitam ver os filhos crescerem enquanto cresço junto com eles. Retornamos para o interior de MG. Deixei no interior de SP uma comunidade de fé que aprendi a amar profundamente, amizades que fiz para a vida inteira, uma carreira de prestígio, um bom salário e uma vida invejável para minha faixa etária. Havia muita insegurança financeira nessa decisão, contudo, não podia negociar o valor de cuidar da minha família.
Quantos pacientes eu perderia migrando minha clínica do presencial para o atendimento apenas remoto? E eu ainda teria que pagar aluguel e as despesas de uma casa, algo que além de um generoso salário, a Igreja se responsabilizava integralmente. Eu não fazia ideia de qual seria o meu salário no mês seguinte à mudança…
É possível que eu seja um bom psicólogo. Nenhum daqueles que assistia e foram transferidos para o atendimento remoto deixou a terapia. Agora se passaram 3 anos e muitos deles ainda me dão o privilégio de acompanhar suas travessias na vida. Nenhum dos meus maiores medos se concretizou…
Atendo atualmente pessoas espalhadas em todo Brasil e brasileiros espalhados pelo mundo (Inglaterra, EUA, Itália, França, Austrália, Espanha, Israel, etc.). Ajudo a formar novos psicólogos na universidade da cidade que estou e dou supervisão clínica compartilhando o que aprendi ao longo dos últimos 20 anos. Tenho sido mais gentil comigo enquanto me dedico a estudar, escrever livros, produzir conteúdo nas redes sociais e trabalhar na formação de cursos na área de psicologia.
Temos um novo Yorkshire – Almada (Sim, em homenagem ao icônico jogador do Botafogo que incorporou Garrincha na lendária final da Libertadores de 2024). Sim, fui campeão da Liberta pela primeira vez e campeão Brasileiro novamente após 30 anos de espera. Se fui triste, não lembro!
Minha primeira formação digital – Clínica da Revolta – já ajudou dezenas de pessoas a reencontrarem o brilho da vida! Enquanto escrevo esse texto estou próximo de lançar meu primeiro livro e meus filhos possuem um pai presente. É um privilégio vê-los crescer de pertinho!
Bom, sempre me pego pensando: “de quantas travessias uma vida é feita?” – não sei se saberemos quantas travessias havemos de fazer na vida, mas podemos olhar para o passado e perceber as que fizemos, olhar para o presente e considerar as que devemos fazer e então termos um futuro para onde caminhar.
Se você chegou por aqui agora você é testemunha das minhas antigas e novas travessias. Ela está rolando em tempo real e você pode acompanhar pelas minhas redes sociais. Espero contribuir com sua jornada e com suas muitas travessias! A ideia é juntar toda essa bagagem de vida e estudo de maneira que façam real diferença na sua vida e de todo mundo que passar por aqui. Bora comigo nessa jornada! Bora viver!
Ricardo Ferreira





